ENTREVISTA: Reitor Natalino Salgado faz balanço das ações da UFMA para combater a Covid-19

A Universidade Federal do Maranhão foi a primeira instituição de ensino superior a suspender o calendário acadêmico, diante da pandemia causada pelo novo coronavirus e declarada pela Organização Mundial de Saúde. Desde então, tem sido combativa tanto no que diz respeito aos cuidados com a comunidade acadêmica, quanto no enfrentamento e prevenção do contágio.

“A UFMA vem trabalhando dia e noite desde que a pandemia se iniciou e só vai parar quando ela deixar de ser um problema para nós. É nosso compromisso oferecer um ambiente saudável para todos que integram a Universidade Federal do Maranhão porque, ao fazer isso, estamos beneficiando também a sociedade à nossa volta tanto na capital como no interior”, disse o médico e professor Natalino Salgado Filho, reitor da UFMA, em entrevista a O Imparcial.

Durante a entrevista o reitor também falou do Hospital Universitário (HU-UFMA), como integrante da rede de assistência aos pacientes da Covid-19 no Maranhão.  Inicialmente, o hospital ofertou para o atendimento à população, no dia 1º de abril, 20 leitos de terapia intensiva exclusivos para assistência de pacientes acometidos pela Covid-19. Com o crescimento do número de casos, houve um esforço para ampliar o número de leitos, o que totaliza agora 40.

Ele também falou dos profissionais que precisaram ser afastados, por terem sido afetados com o vírus. Até o momento não houve. No total, segundo o reitor, são 400 servidores afastados, incluindo os acima de 60 anos e com comorbidades. Confira a entrevista.

O Imparcial – Reitor, como a UFMA está enfrentando a pandemia de Covid-19?

Reitor Natalino Salgado – A UFMA, desde o início da pandemia, tomou a iniciativa de agir de maneira proativa e antecipada. Fomos a primeira instituição de ensino superior a suspender, por meio da Resolução Consepe 1978, o calendário acadêmico, bem como toda e qualquer atividade que pudesse aglomerar pessoas, atendendo a um contexto de saúde pública que exigia a proteção da nossa comunidade com as devidas medidas de distanciamento social.

Depois da UFMA, as demais instituições seguiram o mesmo exemplo. Também instituímos o trabalho remoto dos técnicos administrativos, mantendo de modo presencial apenas aquelas atividades que eram essenciais — como segurança, limpeza, folha de pagamento. Podemos dizer que instauramos, de forma inédita e inovadora, o lockdown e com isso, contribuímos para impedir o avanço da doença.

À medida que as demandas surgiam, íamos procedendo a ações institucionais para sanar questões que se apresentavam. Por exemplo: fizemos colações de grau virtuais, na capital e no interior do estado; expedimos resolução específica para o funcionamento da pós-graduação; criamos campanhas de comunicação sobre o novo coronavírus; efetivamos recursos técnicos e metodológicos para os docentes estabelecerem conteúdos remotos aos alunos, por meio do DINTE e da STI e efetivamos ações de assistência estudantil. Em paralelo, demos todo o apoio ao HU-UFMA para que ele se tornasse um dos pontos do sistema hospitalar de atendimento às demandas da Covid-19. Enfim, a UFMA vem trabalhando dia e noite desde que a pandemia se iniciou e só vai parar quando ela deixar de ser um problema para nós.

OI – Como tem sido a participação da comunidade acadêmica nesse combate?

NS – A comunidade da UFMA, desde o início desse problema, se mobilizou e reuniu todos os seus esforços para ajudar a população. Vale destacar o trabalho de professores, alunos e técnicos de laboratório do Departamento de Química para a produção do álcool glicerinado para atendimento ao HU-UFMA, e de professores e alunos do curso de Design para a produção de protetor facial hospitalar também para o HU-UFMA. Na última segunda-feira, fizemos a doação de álcool glicerinado para três instituições de assistência social. Lançamos um grande projeto de extensão intitulado Máscaras pela Vida, que apoia costureiras da área Itaqui-Bacanga. Também fazemos ações de apoio na venda desse material para as empresas daquela região. Idealizamos e realizamos uma campanha para levantar recursos materiais e financeiros para o HU-UFMA e a produção de diversos informativos para alentar as pessoas que estão em casa. Mais recente, já estamos articulando um grupo para a fabricação de respiradores.  Nossa comunidade é de cerca de 40 mil pessoas, entre professores, técnicos e alunos. E estamos, neste momento, engajados nessa batalha atuando em várias frentes, da forma como podemos. Oferecemos assistência aos alunos, ações de extensão e apoio à comunidade, pesquisa, inovação tecnológica, infraestrutura, tecnologia da informação e comunicação. O Tribunal Regional do Trabalho tem ajudado efetivamente o HU.

OI – Sobre as verbas para investimento nas pesquisas, projetos, inovações, tecnologia… ?

NS – Os recursos para as universidades, cada vez menores, precisam ser empregados onde for, de fato, necessário. Investimos, historicamente, muito pouco em inovação e tecnologia. Quando produzimos algo, nós o fazemos heroicamente devido à inacreditável burocracia e aos limitados recursos. Priorizar o essencial, o inadiável deve ser a meta daqui por diante. Para fazer frente aos desafios do novo mundo que nos aguarda, precisaremos de muito mais recursos para a educação em todos os níveis, ampliar a produção em ciência de ponta é o caminho para que as universidades possam estar cada vez mais preparadas diante de situações desafiadoras como a que estamos vivendo. Todos os países que deram saltos tecnológicos investiram durante décadas em educação e ciência. O Brasil precisa de investimento em ciência e inovação; é o passaporte para romper com as desigualdades.

OI – Qual a situação hoje do Hospital Universitário no tratamento de pacientes com Covid-19?

NS – Inicialmente, o hospital ofertou para o atendimento à população, no dia 1º de abril, 20 leitos de terapia intensiva exclusivos para assistência de pacientes acometidos pela Covid-19. Com o crescimento do número de casos, houve um grande esforço para ampliar o número de leitos e assim atender mais pessoas, de modo que o número de leitos ofertados foi dobrado, totalizando 40 leitos à disposição da sociedade. Além disso, iniciamos o atendimento de enfermaria com 91 leitos, também exclusivo para pacientes com Covid-19, com o objetivo de ter uma retaguarda segura para acelerar a rotatividade dos leitos de UTI, mas ainda necessitam de atenção e cuidados especializados. No atual cenário, a aquisição de insumos e equipamentos de proteção individual tem tido uma atenção especial.

OI – Quanto aos profissionais de saúde, quantos estão afastados?

NS – Infelizmente, não há guerra sem vítimas. Temos contabilizados, até o último dia 5 de maio, 159 colaboradores com suspeita e 62 com diagnóstico confirmado da Covid-19. Desde os primeiros sintomas, os profissionais são afastados das atividades e acompanhados por telemonitoramento. Até agora, todos estão se recuperando bem e muitos até já retornaram ao trabalho. Não houve nenhum óbito. No total são 400 servidores afastados, incluindo os acima de 60 anos e com comorbidades.

OI – Sobre as medidas de isolamento e distanciamento social para conter o contágio do vírus. Como o senhor avalia que está a capital nesse aspecto?

NS – Desde o início da pandemia e do registro do primeiro caso no Brasil, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, ANDIFES, alertava para a necessidade de isolamento social como principal medida para conter o avanço do contágio pelo novo coronavírus.  A UFMA foi a primeira instituição de ensino no estado a suspender as atividades presenciais de modo a garantir a segurança da comunidade acadêmica. A comunidade científica internacional é unânime na defesa do isolamento, pois ainda é a melhor maneira de garantir que não haja uma explosão de casos, o que levaria ao colapso do sistema de saúde. Todas as tentativas de desqualificar o que a ciência prega naufragaram. Os países que demoraram a compreender isso viram a situação fugir ao controle e atingir níveis alarmantes de óbitos. São Luís está em uma posição que beira o caos, justamente pela baixa adesão da população ao isolamento. Medidas mais drásticas a favor da vida nunca podem ser descartadas.    Estamos presenciando o aumento do número de casos a cada dia. Não há sistema de saúde no mundo, nem nos países mais ricos, que suporte um estrangulamento da capacidade de atendimento médico com tamanha intensidade. Enquanto não houver o chamado achatamento da curva, viveremos dias muito difíceis.

OI – O senhor é médico. Considera essa pandemia um desafio para a medicina? Em sua carreira, pensou que poderia presenciar algo desse tipo?

NS – A história da humanidade é marcada por pandemias, desde tempos remotos. A globalização que caracteriza os nossos dias proporciona que situações como essa de calamidade mundial nos torne mais solidários com o próximo e sensíveis à tragédia humana. Nunca uma doença despertou tanto medo, incerteza e insegurança. Mas somos as pessoas certas para este tempo. Irmano-me com cada homem e cada mulher que sabe de sua vocação e chamado e enseja coragem e destemor diante de nosso inimigo. Como em outras vezes, temos certeza de que a ciência vai triunfar e derrotar mais essa ameaça à vida dos nossos semelhantes.  Por outro lado, eu penso que esta situação toda tem também algo de bom a nos ensinar.

OI – O que o senhor acha que fica após o Covid-19?

NS – Não creio que saiamos os mesmos dessa pandemia. Acho que temos tudo para sairmos mais humanos, mais solidários, mais preocupados com o próximo. No nosso caso – falo aqui do ponto de vista da posição que ocupo como Reitor da Universidade Federal do Maranhão – o maior legado é a constatação de que, na hora em que a sociedade necessita, estamos a postos para auxiliar, com pesquisa, com assistência social, com inteligência e muito trabalho. Temos uma função social e, nesta situação, penso que pudemos dar a melhor prova da eficácia dela.

Mas como médico, professor e pesquisador, creio que a pandemia é um convite para o crescimento pessoal. Rubem Alves cunhou a expressão de que ostra feliz não produz pérola. Essas novas formas (ainda que forçadas pelas circunstâncias) de existir constituem um chamado para o crescimento. Como bem nos adverte Albert Camus, em sua obra chamada “A peste” – tão lembrada nestes últimos dias –  o que nos interessa é viver e morrer pelo que amamos. Enquanto vivos, completo, que saibamos fazer a diferença.

Encerro como alerta: A doença Covid-19 é fatal, não escolhe sexo, raça, idade e classe social. O pior ainda está por vir. FIQUEM EM CASA. Não temos tratamento nem vacina. Que Deus nos proteja.

 

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